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Pesquisa apontou um número recorde de separações no Brasil

Por Analice Gigliotti Atualizado em 29 abr 2022, 20h10

Levantamento da entidade que representa os quase nove mil cartórios de notas do Brasil concluiu que a quantidade de pessoas que se divorciaram em 2021 foi recorde desde o início da medição, em 2007.

Segundo o Colégio Notarial do Brasil (CNB), 80.573 casais se separaram, três mil a mais que em 2020. Em contrapartida, o número de novas uniões nunca foi tão baixo. Segundo o IBGE, a queda foi de 21,6.

Afinal, o que levou tantos brasileiros a desistirem dos seus casamentos? Em primeiro lugar, é preciso apontar a praticidade do processo; com o surgimento da pandemia de Covid-19, as separações puderam ser realizadas virtualmente. Se o tour de force para encarar a burocracia era uma barreira, ela foi por água abaixo com o comodismo da internet, sem deslocamentos ou filas.

Mas indo além na interpretação das estatísticas, é possível especular algumas razões comportamentais para esse recorde. A pandemia foi uma experiência radical.

O longo isolamento social obrigatório acabou aflorando os ânimos. As redes sociais se tornaram uma praça pública de queixas sobre os afazeres de casa, o home office, os filhos e os casamentos. Todos foram forçados a um convívio excepcionalmente intenso – talvez intenso demais para alguns casais.

As preocupações, dificuldades econômicas, perdas de parentes e amigos acabaram por enterrar o tesão. O sexo, que para muitos casais já não era frequente e de qualidade, rareou e sucumbiu às pressões do momento.

O radicalismo dos meses de pandemia também fez muita gente reavaliar a vida. As imagens repetidas ad nauseamnos telejornais de pacientes entubados e de filas de caixões explicitaram a finitude da nossa existência.

Foi o suficiente para alguns trocarem de cidade, em busca de uma vida mais calma e espaçosa. Outros decidiram aproveitar o baque forçado e realizaram o sonho de mudar de profissão. Nesse embalo – e não podia ser diferente – também houve aqueles que reavaliaram suas uniões.

Agora, passada a fase crítica da pandemia, começamos a ver outro movimento: os divórcios pós-pandemia. São aqueles casais que se tornaram mais próximos durante o ápice da crise e cruzaram juntos esse momento, mas na volta à vida normal e à rotina, se desencontraram.

A pandemia acelerou processos, encerrou ciclos, autorizou que as pessoas se entregassem ao desconhecido. Agora é hora de se entregar à plenitude da “nova vida” escolhida.

Como escreveu Chico Buarque, “amores serão sempre amáveis”. Que o estado civil dos novos solteiros da praça traga inspiradoras possibilidades de felicidade.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

Fonte: Veja Rio

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