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Antiga Fábrica Bhering, A Primeira Fábrica De Chocolate E Café Moído Do Brasil, Abriga Polo De Economia Criativa

Prédio histórico na zona portuária do Rio chama a atenção pela sua arquitetura em ferro importada da Alemanha nos anos 30

Projeto arquitetônico que aproveita o melhor da luz natural, possui seis andares e mais de 10 mil metros quadrados. Essas são algumas das características do prédio localizado na Rua Orestes, nº 28, em Santo Cristo, região central do Rio, que por anos abrigou uma das maiores fábricas brasileiras, chegando a ser fornecedora de chocolates da Família Imperial Brasileira.

Bala Toffe, bala Boneco, Café Globo, chocolate Refeição. Todos produtos fabricados pela Fábrica Bhering, fundada em 1880, quando teve início suas atividades ainda na Rua Sete de Setembro, na gestão de Pereira Passos. Com a reformulação do centro da cidade, sua primeira instalação na Avenida Central, hoje, a chamada Avenida Rio Branco, precisou ser demolida, se deslocando em seguida para a Avenida Treze de Maio, próximo ao Teatro Municipal. A Fábrica Bhering conhecida como é hoje por tantas novas gerações, se instalou em 1930, na zona portuária do Rio.

São dez mil metros quadrados, e seis andares de uma construção extraordinária e imponente, que explora e tira o melhor da luminosidade natural com suas claraboias e vidraças envoltas a estruturas de ferro muito bem produzidas. Segundo a história, toda essa disposição veio importada da Europa, mais precisamente da Alemanha, onde existia uma antiga fábrica que foi desativada.

Não era apenas sua arquitetura que chamava a atenção. Seus maquinários eram dos mais modernos e sofisticados, para produção de alimentos derivados do café e do chocolate, dignos de uma das maiores fábricas de chocolate e café moído do Brasil. Entre 1940 e 1950, a fábrica Bhering se manteve no auge de sua produção, chegando a contar com mais de 800 funcionários em seu quadro.

Uma grande coincidência ocorrida em meados dos anos 70, levou Ruy Barreto, também produtor de café na cidade de Varginha, Minas Gerias, a tentar uma tratativa com o então dono da fábrica Bhering, para adquirir a marca do café Globo para uso nos seus negócios, e recebeu uma resposta inusitada: quer comprar a marca leva a fábrica. Assim foi feito.

Entre 1974 e 1980, a maior fabricante de chocolate e café moído do país funcionou meia boca, tendo sido golpeado finalmente pela recessão que chegaria nos anos seguintes. Com seus negócios mantidos em Varginha durante este período, Ruy Barreto chega definitivamente ao Rio de Janeiro para enfim tocar a sua fábrica Bhering. A estrutura da fábrica acabou sendo utilizada para a fabricação de merenda escolar para escolas públicas.

“Foi um sucesso. Fazíamos aqui três mil toneladas de quindins por mês para o lanche das escolas. Mas, quando veio o Plano Collor, o governo suspendeu os contratos. Tivemos então que procurar alternativas”, lembra. Das 12 empresas que forneciam merenda para o governo na época, oito quebraram.

Para não abrir falência, o então empreendedor do ramo de café passou a descobrir outras realidades e ramos de negócios que poderiam proporcionar a manutenção daquele espaço que anos mais tarde se tornaria um ícone do lazer carioca. O resultado foi a criação da Bhering Estúdios e da Bhering Locação. Cenas de filmes de produção nacional como ‘Olga’, com Camila Morgado, e ‘Meu Nome Não é Johnny’, estrelado por Selton Melo, foram gravadas no espaço, assim como o clipe da música Dona de Mim, da cantora Iza. Já a Bhering Locação abriu oportunidades para artistas plásticos, músicos e artistas alugarem o metro quadrado e darem um passo à frente na carreira.

Com escritura lavrada no 2º Ofício de Notas da Capital do Rio de Janeiro, matrícula 68092 e ficha 01, o imóvel foi tombado em julho de 2012 pela prefeitura do Rio, porém, é motivo de uma imbróglio judicial. Naquele mesmo ano, a fábrica tinha ido à leilão por uma dívida com a União e acabou arrematada por R$ 3,2 milhões pela Syn-Brasil Empreendimentos. Começou, então, uma disputa judicial pela posse do imóvel, que ainda vive um processo de desapropriação movido pelo município em curso.

Atualmente há mais de 100 artistas na fábrica entre artesãos, artistas plásticos, operadores da moda e da cultura. Aos fins de semana, o espaço recebe eventos regados à música e cerveja artesanal, um programa que virou hit entre as escolhas de lazer dos cariocas. Existe um plano de montar um Centro Cultural Bhering, possivelmente inspirada na Fabrika Red October, em Moscou, uma mistura de hostel, galeria de arte, que reúne a mais autêntica forma de arte da capital russa.

Em fevereiro deste ano, Ruy Barreto faleceu aos 95 anos, deixando a empresa familiar para os filhos. Raphael Barreto, hoje diretor da Fábrica Bhering, conversou com o Colégio Notarial do Brasil – seção Rio de Janeiro e contou um pouco da história da fábrica no Rio e de quando ela foi adquirida pelo seu pai.

“Lembro que a fábrica ficava em um prédio austero, na rua Sete de Setembro. Era um prédio premiado e ficava nessa rua, pois era das mais largas entre as adjacentes que cruzavam a Avenida Rio Branco. Depois ela passou a estar na Avenida Treze de Maio e saiu de lá quando a prefeitura entendeu que ali estava se tornando uma área de glamour da cidade, com a circulação de pessoas da alta sociedade e com a chegada do Theatro Municipal”, comenta Raphael.

Adquirido em 1974 pela família Barreto, o prédio com estrutura importada, advinda da Alemanha, encontra-se hoje na rua Orestes, em Santo Cristo, zona portuária da cidade. Por lá, segundo Raphael, viveram importantes nomes da cultura brasileira, como Machado de Assis e Carlos Gomes. “Era uma área residencial na época e tivemos que correr atrás de transformação do alvará para comercial e industrial”, afirma.

Sobre a fábrica Bhering ser um “centro cultural”, Raphael afirma que a “ideia não é essa, a ideia é que a fábrica seja um polo de artistas que produzam cultura. Estão lá hoje estofadores, expositores, fotógrafos, artistas que utilizam o espaço para produzir algo que contribua para a esfera cultural”.

“Diante do cenário em que se encontra o centro do Rio hoje, eu diria que a fábrica Bhering não é mais um prédio abandonado e invadido por moradores de rua. É um prédio que desempenha seu valor social na região, abriga e preserva uma parte da história da cidade e agora com os planos da prefeitura de valorizar o Porto Maravilha, região próxima, o sentido de inovação que se falava há anos, ganha ainda mais corpo e presença”, conclui Raphael Barreto, diretor da fábrica Bhering.

Cheiro de chocolate e arquitetura voltada para fabricação de alimentos

Durante a entrevista, Raphael Barreto citou algumas curiosidades e amenidades “ouvidas” por quem entre na fábrica Bhering pela primeira vez. “Algumas pessoas afirmam que até hoje sentem um aroma inigualável de chocolate quando entram no prédio”.

Outra curiosidade é que o prédio também recebe a visita de muitos arquitetos que analisam a estrutura e chegam à conclusão que certamente, na Alemanha, o arranjo também dava lugar a uma fábrica de alimentos. As características de ser um local arejado, montado justamente para valorizar a claridade natural são típicas de locais pensados para produção e armazenamento de alimentos.

Fonte: Assessoria de Comunicação – CNB/RJ

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